terça-feira, janeiro 29, 2008

Enquanto.

'Atrás da porta do banheiro tem jornal. Embaixo da cama, ao lado do sofá, caído atrás do computador. Eu quero alcançar as folhas, as notícias, o mundo lá fora. Mas meus passos são tão lentos e monótonos e sofridos. Estou naquele pesadelo sem movimento e sem ação. Com a diferença que não tenho aquela vontade louca e angustiada de fazer xixi. Ou será que tenho? Não sei, não sinto nada. De tanto que sinto tudo, estou minuciosamente abandonada e apática.
Deito no escuro e isso me parece ser o máximo de que sou capaz. Não pensar em absolutamente nada é o limite da inteligência que posso chegar agora.
Nada me afeta, mas tudo sinaliza uma urgência distante. Como quase sofro por não poder nem tocar e nem resolver nada, sofro constante e leve. E isso me parece sem fim. Ainda que o sem fim, nesse caso, não tenho o peso do eterno. Mas apenas porque nada agora tem peso. Estou flutuando de tão leve, mas é embaixo do chão.
Posso ficar horas depilando a sobrancelha. E as horas passam, eu as vejo passando, mas não domino nada, não sou senhora de nada. Aceito essa falta de vontade, essa falta de ambição. Sou um mimetismo tão bem desenhado do nada que eu mesma não me encontro nele.
Respiro fundo e isso me cansa. Acabou a água mas o supermercado fica em outro mundo. Acabou o papel higiênico mas tem papel toalha. Sou um bicho limpinho, mas apenas por vício em ser limpinha. Estou no automático. Vaidade programada. A luz acabou mas tenho um gerador para esses momentos de crise. Um gerador vagabundo que só iluminha uma luzinha lá longe, dizendo pra mim que eu saí mais volto já.
Preciso pagar contas mas é tão absurdo ouvir aquela voz robótica da mocinha solícita que não acho um absurdo ficar assim mesmo, devendo ao mundo. Foram os homens, falhos, humanos, que fizeram as leis. Hoje não quero respeitar nada. Não por rebeldia, não por nada. Apenas porque querer cansa mais que respirar. E querer essas merdas de pagar contas e documentar a vida não passam de uma grande bosta.
Tudo dá um trabalho imenso. Queria existir sem ter de pagar por isso. Sem ter de apresentar um documento que prove minha existência. Queria existir sem pedir desculpas ou apresentar provas.
Acho tudo um grande porre. Um grandessíssimo porre. De vez em quando, no meio do porre, a gente arruma alguém pra fazer uma coceguinha no nosso coração. Mas aí, depois da coceguinha, a vida volta ainda mais tosca. E tudo volta um porre ainda maior.
Porque ninguém se mantém interessante ou mágico. Mas a gente espera, lá no fundo, perdido, soterrado e cansado, que a vida compense de alguma maneira. E a gente ganha dinheiro, compra roupa, aprende novas piadas, passa protetor labial. Só pra que a vida compense em algum momento. Só pra ganhar a coceguinha no coração. Coração burro, tadinho. Que preguiça desse coração burro.
E a pessoinha mortal e cheia de motivinhos legais pra ser feliz segue aprisionada por essa falta de alma. E minhas coisas vão se acumulando. E não há nada que eu possa fazer sem minha alma. A agenda vagabunda me espera, com datas, esperanças e meios de ganhar dinheiro. E eu sequer consigo virar a primeira página. E milhões de livros ganham silêncio. E músicas novas perdem meus buracos. E garotos falsos cognatos perdem meus buracos. E eu estou no escuro, com uma leve impressão de que preciso voltar para a vida, porque a vida está acumulando e depois eu não vou dar mais conta de ser eu. Mas que preguiça de ser esse eu aí. Esse ser cheio de vontades, certezas e vidas na ponta da caneta. Eu me espero como uma boneca murcha, ensacada pela minha falta de alma.
E meu creme para celulite da Nivea me espera, pela metade. E minha touca com flores vermelhas me espera, pendurada no registro. Meu porteiro fala “resisto” e também espera que eu volte. Eu e minhas imitações de porteiro. A papelada toda de coisas que eu sonhei e de sonhos que me empurraram, adivinhem? Também me esperam.
E essas coisas que vou conseguir, essas coisas que eu vou abandonar de vez e até essas coisas que eu nem sei que ainda preciso. Tudo isso aguarda por mim.
A casa tá quietinha coitada, nem a geladeira estrala mais aquele tanto. Estão todos querendo que eu volte, mas ninguém vai me encher, ninguém vai me apressar. Alma não é sonâmbula, nem metade, nem sombra. Por isso mesmo que às vezes demora tanto.'

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